Fernanda Montenegro brilha no palco do campus Araçatuba
A primeira dama do teatro brasileiro, Fernanda Montenegro, já havia declarado que “estamos vivendo a era do monólogo, porque o teatro é caro, não é algo que se compra na prateleira ou na calçada“. Com vigor invejável, a atriz apresentou-se dia 23 de agosto, no teatro do campus Araçatuba, com Viver Sem Tempos Mortos, inspirado em Simone de Beauvoir, francesa, filósofa e ensaísta, que defendeu o existencialismo e o feminismo no século XX, tendo ao seu lado ninguém menos que Jean-Paul Sartre, seu companheiro por toda vida amorosa e intelectual.
“Viver sem tempos mortos, gozar a vida sem entraves”, slogan de maio de 1968 -endossado por Simone- deu título a este trabalho dirigido por Felipe Hirsch. O espetáculo que se pretendia foi adaptado e veio em formato de monólogo, que na opinião de Hirsch e da atriz “é a melhor qualidade da obra”. Segundo o diretor, “Fernanda se aproximou de Simone pela emoção, tornando a montagem intimamente ligada às palavras”. O espetáculo integra o Circuito Cultural Paulista, parceria entre a Secretaria Estadual de Cultura, APAA (Associação Paulista dos Amigos da Arte) e Secretaria Municipal de Cultura, com o apoio da Universidade Paulista.
Durante uma hora, Fernanda Montenegro, que não se apresentava no interior do estado de São Paulo há vinte anos, mostrou à plateia de um teatro lotado, que a reverenciava a cada palavra, porque é hoje um ícone da dramaturgia nacional. Ao final, aplaudida de pé, fez um agradecimento especial que emocionou a todos: “este não é um espetáculo que corteja fácil, vive de uma literatura, eu sei que estou dentro de um espaço educacional, cultural, mas é muito gratificante quando a gente tem uma plateia que nos ajuda a fazer o espetáculo, porque fazemos o espetáculo juntos, não existe uma atriz aqui e uma plateia ali, o teatro só se faz quando tem uma respiração só dentro da sala e nós todos formamos um só corpo.”
A exemplo de outros grandes nomes da cultura brasileira que pisaram o palco do teatro, a atriz também valorizou o espaço que a universidade oferece em seu campus. “Eu queria agradecer muito a esta cidade, a presença dos senhores, ao senhor diretor regional da UNIP, que me deu o prazer de vir aqui bater uma foto comigo, a todo este complexo cultural/educacional, a este palco maravilhoso, a uma noite como essa. Às vezes a gente tem que atravessar quilômetros, o Brasil é muito grande, pegar um avião, outro avião, mas quando a gente chega a uma cidade e encontra uma plateia como essa, a gente sai daqui com uma justificativa de vida” concluiu a atriz.
Igualmente emocionada, ela comparou o trabalho do ator ao do professor. “Para quem exerce esse tipo de profissão, que é muito parecida com a dos professores, quando se consegue dar uma boa aula e ver que a turma inteira caminhou em seu aprendizado, imagino que o professor deva sair plenamente recompensado... e a turma também.” E concluiu: “já que estou dentro de um complexo educacional, eu quero então dizer a vocês que a turma aí (referindo-se ao público) respondeu muito bem a minha modesta aula aqui, neste palco!”
Para o diretor do campus, professor Hélio Negri, “uma aula nada modesta, porque o feminismo de Simone de Beauvoir na pele de Fernanda Montenegro conferiu ao palco do campus Araçatuba dimensões nunca sentidas, um verdadeiro divisor de águas (como o foi uma das obras da ensaísta francesa em relação ao pensamento feminista), uma bela e inesquecível referência que faltava à cultura local.”